Um esquema que retirava medicamentos de uso controlado do ambiente hospitalar para colocá-los à disposição do tráfico de drogas foi desarticulado pela Polícia Civil. A investigação aponta que substâncias como fentanil, morfina, cetamina e adrenalina eram desviadas e posteriormente revendidas a pessoas ligadas ao tráfico, que utilizavam os medicamentos em misturas com outras drogas, principalmente cocaína.
A operação foi conduzida pelo Departamento Especializado em Narcóticos (Denarc) e terminou com a prisão de uma técnica de enfermagem, de 31 anos, e de um homem, de 37 anos, durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão em Cariacica e Vila Velha. Um terceiro investigado, preso em novembro de 2025, é apontado como responsável por fazer a intermediação entre a profissional suspeita de fornecer os medicamentos e o homem que os recebia para posterior revenda.
Investigação começou após prisão em novembro
O esquema começou a ser desvendado em novembro do ano passado, quando o intermediário foi preso em flagrante. A partir das informações obtidas durante o avanço das apurações, os investigadores conseguiram identificar outras duas pessoas que, segundo a Polícia Civil, ocupavam funções distintas dentro da estrutura.
A investigação apontou a técnica de enfermagem como suspeita de retirar medicamentos de uso hospitalar, enquanto o homem de 37 anos seria o destinatário dos produtos.
A Polícia Civil ainda não conseguiu determinar de qual hospital ou unidade de saúde os medicamentos eram retirados. A suspeita trabalha como técnica de enfermagem há aproximadamente seis anos e já passou por diferentes locais de trabalho, o que levou os investigadores a ampliar a apuração para identificar a origem exata dos produtos e verificar a participação de outras pessoas.
Medicamentos eram usados para potencializar drogas
De acordo com a investigação, os medicamentos não eram destinados apenas à revenda. Após receber os produtos, o suspeito apontado como traficante os repassava para pessoas envolvidas com o comércio de drogas.
Segundo a delegada Fernanda Prado, adjunta do Denarc, os medicamentos eram utilizados em misturas com outras substâncias comercializadas ilegalmente.
“Esse preso inicialmente pegava esses produtos e fazia essa revenda para pessoas que estavam envolvidas com o tráfico de drogas. A partir do recebimento dessa substância, esse traficante fazia as misturas em outras drogas, como a cocaína, e passava a vender essas drogas.”
disse.
Entre as substâncias investigadas está o fentanil, um opioide de uso restrito e utilizado em ambiente hospitalar para o tratamento de dores intensas.
O delegado Ricardo Almeida, titular do Denarc, explicou por que a utilização da substância preocupa as autoridades.
“O fentanil é cerca de 100 vezes mais forte do que a morfina. Então, traficantes se aproveitam disso para misturar outras drogas, para aumentar a potencialidade e viciar o usuário mais facilmente. E aí ele consegue oferecer mais lucro, que é sempre o objetivo final do traficante.”
afirmou.
Morfina foi encontrada nas casas dos investigados
Durante o cumprimento dos mandados de busca e apreensão, os policiais localizaram morfina nas residências dos dois investigados presos na operação.
Na casa da técnica de enfermagem, além dos medicamentos, foram encontrados 18 comprimidos de ecstasy (MDMA) e três “catuques”, bilhetes utilizados para comunicação entre pessoas presas.
No imóvel do outro suspeito, os agentes apreenderam uma pistola calibre .380, munições, uma balança de precisão e outros materiais.
Ao todo, a ação resultou na apreensão de:
- 80 comprimidos de sulfato de morfina;
- 3 ampolas de sulfato de morfina;
- 1 ampola de sulfato de haloperidol;
- 18 comprimidos de ecstasy (MDMA);
3 porções de haxixe; - 1 pistola calibre .380;
- 15 munições calibre .380;
- 1 balança de precisão.
A investigação também aponta que medicamentos como fentanil, morfina, adrenalina e cetamina estavam entre as substâncias que poderiam ser desviadas do ambiente hospitalar.
Técnica de enfermagem negou desvio, mas admitiu que venderia morfina
A profissional de 31 anos negou à Polícia Civil que estivesse desviando medicamentos do hospital.
Segundo Fernanda Prado, durante o depoimento, ela alegou que a morfina encontrada em sua residência havia sido esquecida no bolso do uniforme e que não teria comunicado o fato às autoridades ou ao local de trabalho.
Apesar de negar o desvio, porém, a investigada teria admitido que o medicamento encontrado com ela seria destinado à comercialização.
“Ela afirmou que esqueceu o medicamento dentro do bolso e não reportou isso. Apesar de negar que estivesse desviando a morfina, ela admitiu que essa droga que foi encontrada com ela seria destinada à comercialização.”
disse Fernanda Prado.
A origem dos medicamentos permanece como uma das principais questões da investigação.
Polícia acompanha com atenção circulação do fentanil
A possibilidade de medicamentos hospitalares chegarem ao mercado ilegal também despertou preocupação dentro da Polícia Civil, especialmente pela presença do fentanil entre as substâncias investigadas.
O medicamento é um opioide de uso controlado, destinado ao tratamento de dores intensas, e não é comercializado normalmente em farmácias.
Durante a apresentação da investigação, o delegado-geral da Polícia Civil do Espírito Santo, Jordano Bruno, afirmou que o Estado trata informações relacionadas ao desvio do fentanil como prioridade justamente para impedir que a substância passe a circular de maneira semelhante ao observado em outros países.
“Esse tipo de informação é tratada pelo Denarc com muito cuidado, com prioridade, para que a gente não permita que passemos pelo que outros países têm passado em relação a essa substância.”
finalizou.
Segundo a Polícia Civil, o fentanil apresenta alto potencial de dependência e pode provocar overdose, especialmente quando associado a outras drogas.
Nos Estados Unidos, onde existe produção clandestina da substância, o opioide está relacionado a uma epidemia de mortes provocadas por overdose. No Brasil, conforme a Polícia Civil, os casos identificados estão principalmente relacionados ao desvio de medicamentos destinados ao uso hospitalar.
Investigação continua para descobrir origem dos medicamentos
Apesar das prisões e das apreensões realizadas, a Polícia Civil ainda busca esclarecer toda a cadeia de fornecimento dos medicamentos.
Os investigadores trabalham para descobrir exatamente de quais unidades de saúde os produtos foram retirados e verificar se outras pessoas participaram do esquema.
A experiência profissional da técnica de enfermagem, que atua na área há cerca de seis anos e já trabalhou em diferentes unidades, é um dos pontos considerados pela investigação para tentar identificar a origem dos medicamentos e eventuais outros envolvidos.
A operação foi realizada pelo Departamento Especializado em Narcóticos (Denarc), com mandados cumpridos nos municípios de Cariacica e Vila Velha. A investigação segue em andamento.
