O aumento de 11% nos diagnósticos de HIV registrados no Espírito Santo em 2025 colocou novamente a prevenção e o diagnóstico precoce no centro das discussões sobre saúde pública no Estado. Os dados são da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), que aponta a necessidade de ampliar as ações de testagem, facilitar o acesso ao tratamento e enfrentar a desinformação e o preconceito que ainda cercam o vírus.
Apesar do crescimento no número de diagnósticos, os avanços no tratamento mudaram de forma significativa a realidade das pessoas que vivem com HIV. Atualmente, mais de 21 mil pessoas são acompanhadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Espírito Santo.
Quando o tratamento é seguido corretamente, a pessoa pode alcançar a chamada carga viral indetectável, situação em que a quantidade de vírus no organismo fica tão baixa que o HIV não é transmitido por via sexual.
Descoberta durante doação de sangue mudou a vida de psicólogo
A importância do diagnóstico também pode ser observada na trajetória do psicólogo Chander Freitas, que descobriu que vivia com HIV há 13 anos, durante uma tentativa de doar sangue para um familiar.
“Eu fui fazer uma doação de sangue para um parente que estava precisando e, nos exames realizados pelo laboratório, descobri que vivia com HIV.”
disse.
Depois da descoberta, Chander iniciou o tratamento com medicamentos antirretrovirais. Com a continuidade da terapia, conseguiu atingir a carga viral indetectável.
Atualmente, além de seguir a própria rotina de tratamento, ele coordena um grupo de acolhimento destinado a pessoas que acabaram de receber o diagnóstico.
Para Chander, um dos principais problemas enfrentados por quem descobre o HIV é o medo sobre o futuro e a sensação de isolamento.
“As pessoas geralmente recebem o diagnóstico e ficam sozinhas, guardando essa informação por medo de não saber como será a vida dali para frente.”
afirmou.
A experiência fez com que ele passasse a atuar também no acolhimento de pessoas que enfrentam os primeiros momentos após a descoberta da infecção.
Tratamento também é uma forma de prevenção
A evolução dos medicamentos antirretrovirais é apontada por especialistas como um dos principais avanços no enfrentamento do HIV.
A infectologista Rubia Miossi explica que a ampliação do número de pessoas em tratamento está relacionada também à evolução da assistência médica. Segundo ela, quando a terapia é seguida corretamente e a pessoa alcança a carga viral indetectável, ela deixa de transmitir o HIV por via sexual.
“Uma vez que elas estão em tratamento e indetectáveis, elas não transmitem mais o vírus para os parceiros sexuais. Isso também é uma estratégia de prevenção.”
Rubia Miossi.
A estratégia permite, portanto, que o tratamento tenha impacto não apenas na qualidade de vida de quem vive com HIV, mas também na redução da transmissão do vírus.
Aids ainda provoca mortes no Espírito Santo
Mesmo com os avanços registrados no tratamento e a redução significativa da mortalidade observada ao longo das últimas décadas, a Aids ainda provoca mortes no Estado.
Segundo a Sesa, 209 pessoas morreram em decorrência da Aids no Espírito Santo no ano passado.
Para especialistas, parte dessas mortes poderia ser evitada se o diagnóstico fosse realizado mais cedo e o tratamento iniciado rapidamente. Por isso, a identificação da infecção antes do surgimento de complicações continua sendo uma das principais estratégias de enfrentamento.
SUS oferece PrEP e PEP gratuitamente
Além do tratamento para quem já vive com HIV, o Sistema Único de Saúde disponibiliza estratégias voltadas à prevenção da infecção.
Uma delas é a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), cuja oferta vem sendo ampliada nas unidades básicas de saúde de todos os municípios capixabas.
A PrEP é indicada para pessoas que apresentam maior risco de exposição ao HIV e reduz significativamente a possibilidade de infecção.
Outra alternativa é a Profilaxia Pós-Exposição (PEP), utilizada depois de uma possível exposição ao vírus. Para ter eficácia, a medicação deve ser iniciada em até 72 horas após a situação de risco.
Tanto a PEP quanto os medicamentos antirretrovirais utilizados no tratamento são oferecidos gratuitamente pelo SUS.
Especialista alerta para falta de informação entre jovens
Para a infectologista Rubia Miossi, o aumento dos diagnósticos também evidencia a necessidade de retomar o debate sobre HIV, principalmente entre adolescentes e jovens.
Na avaliação da especialista, a redução das discussões públicas sobre o vírus fez com que parte de uma nova geração crescesse sem informações suficientes sobre prevenção, formas de transmissão e importância da testagem.
“Nós deixamos de falar sobre HIV. Isso criou uma geração de jovens e adolescentes que nunca ouviu falar da necessidade da prevenção e não sabe como se prevenir.”
disse.
O cenário preocupa porque, além da falta de informação, o preconceito ainda pode dificultar a busca por diagnóstico e tratamento.
Testagem continua sendo uma das principais ferramentas
Diante do aumento registrado no Espírito Santo, especialistas orientam que pessoas sexualmente ativas realizem testes regularmente e utilizem preservativos.
A recomendação também é procurar uma unidade de saúde para conhecer as estratégias de prevenção disponíveis, incluindo a PrEP e a PEP, de acordo com cada situação.
A combinação entre diagnóstico precoce, tratamento adequado, prevenção e informação é apontada como fundamental para reduzir novas infecções, evitar complicações relacionadas ao HIV e combater o preconceito que ainda envolve o vírus.
Créditos de apuração e reportagem
A presente reportagem foi elaborada com base nas informações apuradas e publicadas pelo jornal Folha Vitória. Nossa equipe utilizou os dados obtidos por esse veículo como referência principal para a construção desta reportagem.
Agradecemos a toda equipe pelo trabalho jornalístico e pela contribuição à disseminação da informação.
