A Justiça do Espírito Santo condenou Eduardo Bonfim Meireles e Érica Lopes Ferreira a penas que, somadas, ultrapassam 225 anos de prisão pelos assassinatos dos soldados da Polícia Militar Bruno Mayer Ferrani, de 30 anos, e Paulo Eduardo Oliveira Celini, de 29 anos. A decisão foi tomada pelo Tribunal do Júri de Cariacica nesta terça-feira (02), quase quatro anos após o crime que abalou as forças de segurança do Estado.
Os militares foram mortos durante uma perseguição a suspeitos de um assalto ocorrido na madrugada de 16 de outubro de 2022, na Rodovia Leste-Oeste. Segundo as investigações, os policiais foram atraídos para uma emboscada e atingidos por diversos disparos de arma de fogo enquanto cumpriam o dever de proteger a população.
Tribunal reconhece emboscada e condena réus por múltiplos crimes
Durante o julgamento, os jurados acolheram a tese apresentada pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES) e concluíram que os policiais foram assassinados de forma premeditada enquanto exerciam suas funções.
Érica Lopes Ferreira foi condenada a 99 anos e 11 meses de reclusão, enquanto Eduardo Bonfim Meireles, vulgo Dentinho, recebeu pena de 125 anos e 9 meses de prisão. Ambos deverão cumprir a pena inicialmente em regime fechado.
Além do duplo homicídio quadruplamente qualificado, os dois foram condenados por associação criminosa armada, porte ilegal de arma de fogo de uso restrito, roubo, tentativa de latrocínio e furto qualificado.
Eduardo também foi responsabilizado pelo crime de uso de documento falso. Já Érica foi absolvida da acusação de posse de drogas para consumo pessoal após manifestação favorável do próprio Ministério Público.
A acusação foi sustentada pelos promotores de Justiça Bruno Lima e Helaine Pimentel, que defenderam a responsabilização dos envolvidos pela execução dos militares.

Como aconteceu o crime
De acordo com a investigação, os acusados participavam de um grupo criminoso que circulava pela Grande Vitória na madrugada do crime. Após deixarem um churrasco em Vila Velha, os suspeitos seguiam em um Volkswagen Fox branco quando encontraram ocupantes de um Fiat Argo parado às margens da Rodovia Leste-Oeste devido a um pneu furado.
Aproveitando-se da vulnerabilidade das vítimas, o grupo realizou um assalto e roubou pertences pessoais, incluindo um telefone celular e a chave do veículo. Durante a ação criminosa, uma das vítimas foi baleada.
Pouco depois, os soldados Bruno Mayer Ferrani e Paulo Eduardo Oliveira Celini perceberam a ocorrência e iniciaram o acompanhamento do veículo utilizado pelos suspeitos.
A perseguição seguiu até o bairro Santa Bárbara, em Cariacica. Conforme apurado pelas autoridades, Eduardo Bonfim Meireles conseguiu sair do carro sem ser percebido pelos policiais e se posicionou estrategicamente atrás da viatura. Em seguida, os criminosos abriram fogo contra os militares.
Os policiais foram atingidos por diversos disparos e socorridos pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), sendo encaminhados ao Hospital Meridional, em Cariacica. Apesar dos esforços das equipes médicas, ambos não resistiram aos ferimentos.

Polícia detalhou dinâmica da emboscada
Na época do crime, a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) informou que os policiais realizavam o acompanhamento de um veículo suspeito quando foram surpreendidos pelos criminosos.
“Os militares realizavam o acompanhamento a um veículo, suspeito de envolvimento em um roubo, quando, nas proximidades do bairro Santa Bárbara, em Cariacica, dois ocupantes do veículo desembarcaram e se renderam. Ao se aproximarem, os militares foram surpreendidos por outros dois criminosos, um homem e uma mulher, que estavam escondidos atrás de um caminhão estacionado.”
informou a pasta na ocasião.
Testemunhas relataram que a viatura foi atingida por mais de dez disparos. Segundo informações registradas pelo Centro Integrado Operacional de Defesa Social (Ciodes), um dos policiais foi baleado no rosto e o outro atingido na região da axila.
Prisões ocorreram horas após o assassinato
Os quatro suspeitos foram presos ainda no mesmo dia do crime. Eric da Silva Ferreira e Luana de Jesus Luz foram localizados no bairro Padre Gabriel, em Cariacica.
Já Eduardo Bonfim Meireles e Érica Lopes Ferreira foram encontrados escondidos em um motel no bairro Rio Branco, também em Cariacica, cerca de sete horas após a execução dos militares.
Durante a abordagem, os policiais apreenderam uma pistola calibre 9 milímetros e as armas pertencentes aos soldados, que haviam sido levadas pelos criminosos após o ataque.
Na ocasião, o tenente-coronel Schulz, comandante do 7º Batalhão da PM, detalhou a operação que resultou na prisão do casal.
“De forma velada, fizeram a abordagem de forma a não levantar suspeitas e fizeram a detenção deles ali. Estavam fora do quarto, deixaram uma arma de um policial embaixo do colchão. Estavam saindo com uma arma deles 9 milímetros e a arma de outro policial.”
declarou.

Comandante da PM lamentou morte dos militares
A morte dos soldados causou forte comoção entre integrantes das forças de segurança e a população capixaba.
À época, o então comandante-geral da Polícia Militar, coronel Douglas Caus, lamentou a perda dos militares e destacou a atuação dos policiais durante a ocorrência.
“Toda a Polícia Militar está de luto e agora é solidariedade às famílias. O sentimento é de que eles não viessem presos, viessem todos mortos, mas não esboçaram reação. Então, a Polícia Militar fez a prisão conforme manda a lei. O nosso policial militar quando faz o juramento final jura servir e proteger a sociedade, foi o que esses policiais militares fizeram.”
afirmou.
Diante da repercussão do caso, o então governador Renato Casagrande decretou luto oficial de três dias no Espírito Santo.
Outros acusados ainda aguardam julgamento
Embora o júri tenha condenado Eduardo e Érica, outros dois investigados apontados como participantes da ação criminosa ainda aguardam julgamento.
Eric da Silva Ferreira permanece preso preventivamente, enquanto Luana de Jesus Luz responde ao processo em liberdade provisória. Ambos aguardam o julgamento de recursos pendentes na Justiça.

Despedida foi marcada por homenagens
Os corpos dos soldados Bruno Mayer Ferrani e Paulo Eduardo Oliveira Celini foram sepultados em 17 de outubro de 2022 sob forte comoção.
Familiares, amigos, colegas de farda e representantes das forças de segurança participaram das cerimônias de despedida. As homenagens incluíram cortejos, honras militares e um sobrevoo do helicóptero do Núcleo de Operações e Transporte Aéreo (Notaer), marcando o último adeus aos policiais mortos em serviço.

Justiça
A condenação dos envolvidos representa um dos desfechos mais aguardados pelas famílias das vítimas e pelas forças de segurança do Espírito Santo, quase quatro anos após um dos ataques mais graves já registrados contra policiais militares em serviço no estado.
