A Polícia Militar de São Paulo colocou na reserva — equivalente à aposentadoria — o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso preventivamente e investigado pelo feminicídio da soldado Gisele Alves Santana. A decisão, publicada no Diário Oficial nesta quinta-feira (02), garante ao oficial remuneração praticamente integral, mesmo diante da gravidade das acusações, o que provocou forte reação pública e indignação da família da vítima.
Aposentadoria com remuneração elevada mesmo sob investigação
O afastamento definitivo de Geraldo Leite Rosa Neto foi oficializado por meio de portaria da Diretoria de Pessoal da Polícia Militar. Pelo documento, o tenente-coronel passa à inatividade com base em critérios proporcionais de tempo de serviço — descritos como “58/60” — o que assegura vencimentos próximos ao valor integral da carreira.
Antes de ser preso, em fevereiro de 2026, o salário bruto do oficial era de R$ 28,9 mil. Com a aposentadoria, estimativas apontam que ele deve receber cerca de R$ 21 mil mensais.
O pedido de transferência para a reserva teria sido feito pelo próprio militar. Ainda assim, a corporação informou que a medida não interfere nos desdobramentos administrativos e disciplinares em curso.
Crime inicialmente tratado como suicídio
A morte da soldado Gisele Alves Santana ocorreu em 18 de fevereiro, no apartamento onde o casal vivia, na capital paulista. A vítima foi encontrada com um tiro na cabeça.
Na ocasião, o próprio tenente-coronel acionou o socorro e apresentou o caso como suicídio. No entanto, a versão passou a ser contestada após análises periciais.
Laudos do Instituto Médico Legal (IML) identificaram sinais de agressão incompatíveis com a hipótese inicial, o que levou à reclassificação do caso para morte suspeita e, posteriormente, ao indiciamento por feminicídio e fraude processual.
Desde o início, familiares de Gisele rejeitaram a versão apresentada pelo oficial.
Processo pode levar à expulsão da corporação
De acordo com a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, a aposentadoria não impede a continuidade do processo administrativo conduzido pela Corregedoria da PM.
O procedimento pode resultar na perda do posto e da patente do tenente-coronel. No entanto, especialistas apontam que, mesmo em caso de exclusão da corporação, o direito à aposentadoria conquistada por tempo de serviço pode ser mantido, dependendo de decisão judicial.
Família critica decisão e cobra justiça
A rapidez na concessão da aposentadoria gerou revolta entre familiares da vítima. O pai de Gisele, José Simonal Telles, fez duras críticas em um vídeo divulgado nas redes sociais:
“Você acha justo a população do estado de São Paulo pagar salário para um monstro desse, covarde que matou sua mulher e colega de farda porque disse não pra ele? Para aposentar ele foi rápido, para a minha filha sobrou o caixão e o luto para a família”.
disse o pai da vítima.
A mãe da policial, Marinalva Vieira Alves de Santana, também manifestou indignação:
“É muito revoltante ver um assassino desse ser aposentado. É muito triste para nós, revoltante também um assassino desse se aposentar assim tão rápido”.
lamentou.
As declarações tiveram ampla repercussão nas redes sociais e intensificaram o debate público sobre o caso.
Governador defende punição rigorosa
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, comentou o episódio durante agenda oficial no interior do estado. Segundo ele, a concessão da aposentadoria segue a legislação vigente, mas não interfere no julgamento criminal.
“As instâncias são independentes. Ele vai sofrer o processo penal. Nosso desejo é que seja condenado exemplarmente, porque foi um crime bárbaro”.
afirmou.
O governador também defendeu punições severas:
“A gente espera que tenha uma punição rigorosa, que perca o posto e a patente. E que apodreça o resto da vida na cadeia”.
disse.
Repercussão nacional e pressão por mudanças
O caso ganhou dimensão nacional, com forte mobilização nas redes sociais. Internautas criticaram a decisão da Polícia Militar, especialmente pelo fato de o principal suspeito de feminicídio continuar recebendo remuneração elevada enquanto responde ao processo.
A situação reacendeu discussões sobre legislação militar, benefícios previdenciários e mecanismos de responsabilização em casos envolvendo agentes públicos acusados de crimes graves.
