Uma mulher de 32 anos, segurando uma faca e caminhando em direção a três policiais militares, foi morta com um disparo de arma de fogo em uma rua da zona norte de São Paulo. A vítima, identificada como Camila Pereira da Silva, morreu na tarde de quinta-feira (15), em uma ocorrência que agora está no centro de uma investigação sobre os limites do uso da força policial. O soldado que atirou foi preso em flagrante, mas recebeu liberdade provisória nesta sexta-feira (16), mediante medidas cautelares.
O caso aconteceu na região de Pirituba, nas proximidades do cruzamento da Avenida Mutinga com a Rua Cândido da Cunha. Outros relatos situam a ocorrência na Rua Mutinga, na altura do número 127, e na Rua Coronel José Rufino Freire.
Imagens de câmeras de segurança mostram Camila com uma faca na mão, aproximando-se dos agentes. Segundo os policiais, ela não obedeceu às ordens para largar o objeto e continuou avançando. A Polícia Civil, porém, avaliou que o vídeo não mostra um movimento de ataque iminente no instante do disparo e apontou possível uso excessivo e desproporcional da força.
A investigação também busca esclarecer o que aconteceu antes da abordagem, incluindo o pedido de ajuda feito pelo ex-companheiro da mulher, as condições de saúde dela e as circunstâncias em que o policial decidiu atirar.
O que mostram as imagens da ocorrência
Os registros que circularam nas redes sociais mostram Camila caminhando na direção de três policiais militares enquanto segura uma faca. Após alguns segundos, o soldado André Coelho Maximo da Costa efetua um disparo, que atinge a região torácica da mulher. Ela cai e morre no local.
Segundo os relatos dos agentes, foram dadas ordens verbais para que Camila largasse a faca e interrompesse a aproximação. A equipe afirmou que começou a recuar para manter uma distância segura, mas o policial que efetuou o tiro disse ter encontrado um obstáculo durante a movimentação.
Em depoimento, André afirmou que esbarrou em um caminhão estacionado enquanto tentava se afastar da mulher. Ele também declarou que o fluxo de veículos na via limitava as possibilidades de recuo e que, diante do que considerou um perigo iminente, entendeu que não havia outra alternativa segura para impedir a aproximação.
O soldado relatou ainda que solicitou atendimento médico após o disparo. A versão apresentada por ele e a avaliação da Polícia Civil sobre a necessidade do tiro são pontos centrais da apuração. Nossa equipe teve acesso ao vídeo que mostra o momento exato do ocorrido. Confira o vídeo.
Vídeo: Instagram ES na Fita
Delegado aponta possível excesso no uso da força
Ao analisar os elementos iniciais do caso, o delegado João Pedro Murgolo considerou que a reação do policial foi manifestamente desproporcional. A avaliação levou em conta as imagens de câmeras de segurança e os depoimentos reunidos durante a ocorrência.
Segundo a análise policial, Camila estava sozinha diante de pelo menos três agentes treinados e equipados. O local era uma via pública aberta, com espaço para outras possibilidades de afastamento e contenção.
O delegado destacou que, no momento do disparo, a mulher mantinha os braços baixos e não teria levantado a faca para golpear os policiais. A avaliação também aponta que ela não realizou um movimento súbito de ataque nem brandiu a arma branca imediatamente antes de ser atingida.
“No instante do tiro, não havia investida da vítima contra nenhum dos policiais militares, nem movimento de ataque ao policial que estava à frente.”
escreveu o delegado no boletim de ocorrência.
O documento acrescenta que o simples deslocamento de uma pessoa com uma faca na mão, a vários metros de distância e sem gesto ofensivo, não configura, por si só, uma agressão iminente que autorize o uso de força letal.
Na análise do delegado, não houve emprego progressivo da força antes do disparo. Ele apontou que os policiais não utilizaram alternativas como spray químico, arma de choque, conhecida como taser, ou cacetete.
Questionado sobre o motivo de não ter utilizado o taser, André Coelho Maximo da Costa afirmou que não tinha habilitação para operar o equipamento.
A análise da Polícia Civil também levou em consideração o artigo 25 do Código Penal, que trata da legítima defesa e exige o uso moderado dos meios necessários para repelir uma agressão injusta, atual ou iminente. Para o delegado, os elementos disponíveis indicavam que os limites da necessidade e da moderação poderiam ter sido ultrapassados.
A avaliação, no entanto, é técnica e não representa uma condenação definitiva do policial. O próprio delegado ressaltou que as conclusões podem ser reavaliadas conforme o avanço das investigações.
Como a ocorrência começou
Antes do disparo, três policiais militares da Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas (Rocam) realizavam patrulhamento quando uma das motocicletas apresentou pane elétrica. A equipe parou em uma oficina mecânica para verificar o problema.
Foi nesse momento que o ex-companheiro de Camila, Diogo Sousa e Silva, chegou ao local em uma Toyota Hilux preta, acompanhado de outra pessoa, segundo os relatos apresentados na investigação.
Diogo pediu ajuda aos policiais e afirmou que estava sendo perseguido e ameaçado pela ex-companheira, que estaria armada com uma faca e não aceitaria o fim do relacionamento, ocorrido havia aproximadamente cinco meses.
Em depoimento, ele contou que havia voltado para casa e encontrado Camila perto do portão. Segundo sua versão, os dois não conversaram naquele momento. Mais tarde, ao sair novamente, ele teria sido surpreendido pela ex, que estaria com uma faca e passou a ameaçá-lo.
Com medo, Diogo deixou o local e procurou os policiais. Ele afirmou que não presenciou o momento em que Camila foi baleada nem toda a dinâmica da intervenção. Disse ter ouvido apenas uma ordem verbal de um dos agentes: “não venha”.
Os policiais relataram que, depois do pedido de ajuda, Camila apareceu no local segurando a faca. A equipe ordenou que ela largasse o objeto, mas, segundo os agentes, ela continuou caminhando em sua direção.
O soldado que efetuou o disparo confirmou em interrogatório a versão de que a equipe estava na oficina por causa da pane na motocicleta e que a caminhonete preta se aproximou com dois ocupantes, um dos quais pediu ajuda.
A investigação também analisa imagens de câmeras de segurança e registros das câmeras corporais dos policiais para esclarecer a sequência dos acontecimentos.
Ex-companheiro relatou ameaças; tia apresentou outra versão
O relacionamento entre Camila e Diogo havia terminado cerca de cinco meses antes da ocorrência. Segundo o ex-companheiro, a mulher não aceitava o rompimento e passou a persegui-lo e ameaçá-lo.
A tia da vítima, Marina Pereira da Silva, também prestou depoimento e relatou que o relacionamento era conturbado, marcado por desentendimentos, separações e reconciliações. Na avaliação da familiar, Camila sofria violência psicológica por parte de Diogo, e o desgaste emocional da relação teria contribuído para agravar sua situação.
Marina afirmou ainda que Camila estaria incomodada com a atual companheira do ex. Segundo informações que a tia disse ter recebido, a mulher teria provocado Camila e dirigido desaforos a ela. A familiar acredita que esse contexto pode ter influenciado a ida da sobrinha ao endereço do ex-companheiro.
Esses relatos fazem parte dos elementos que precisam ser examinados pelos investigadores. As versões apresentadas pelas pessoas ouvidas não representam, por si só, uma conclusão definitiva sobre o relacionamento ou sobre o que motivou o encontro.
Camila enfrentava problemas graves de saúde
O depoimento de Marina também revelou que Camila enfrentava problemas graves de saúde havia aproximadamente cinco anos.
Segundo a tia, a sobrinha estava na fila para um transplante de fígado havia cerca de dois anos. Ela precisava comparecer semanalmente ao hospital para acompanhamento e tratamento, situação que comprometia significativamente sua qualidade de vida e a impossibilitava de trabalhar.
A familiar afirmou que Camila não tinha diagnóstico de transtorno psiquiátrico ou doença mental e que não sabia de acompanhamento médico específico nessa área.
A informação contrasta com os relatos atribuídos aos policiais, que descreveram a mulher como alguém que estaria em possível surto psicótico durante a ocorrência. Até o momento, o material apresentado sobre o caso não confirma um diagnóstico psiquiátrico da vítima.
Marina também descreveu Camila como uma mãe dedicada, que mantinha vínculos afetivos com as duas filhas pequenas. A morte da mulher deixou as duas crianças sem a mãe.

Policial foi preso em flagrante, mas Justiça concedeu liberdade provisória
Após o disparo, o soldado André Coelho Maximo da Costa foi preso em flagrante e encaminhado ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), responsável pela investigação.
Nesta sexta-feira (16), depois de passar por audiência de custódia, ele recebeu liberdade provisória por decisão do juiz Lucas Bannwart Pereira.
Na decisão, o magistrado determinou que o policial cumpra medidas cautelares pelo período de um ano. Entre elas estão a suspensão das atividades operacionais e de qualquer função que exija porte de arma de fogo, ficando restrito a tarefas administrativas; a obrigação de manter o endereço atualizado; e a proibição de deixar a cidade onde reside por mais de oito dias sem autorização judicial.
O descumprimento das condições pode levar à revogação da liberdade provisória e ao retorno do policial à prisão.
Ao justificar a decisão, o juiz considerou que o soldado é tecnicamente primário, tem vínculo com a comarca e possui emprego lícito. Na avaliação do magistrado, essas circunstâncias, por si só, não indicam risco à ordem pública.
O juiz também entendeu que a possibilidade de legítima defesa não poderia ser descartada naquele momento, considerando os relatos de que Camila estaria em possível surto, segurava uma faca e continuava avançando mesmo após as ordens policiais.
Antes da soltura, André estava no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte da capital paulista. Após a decisão judicial, foi expedido o alvará de soltura.
Defesa considera prisão arbitrária
A defesa do policial contestou a prisão em flagrante e afirmou que o agente atuou no exercício das funções institucionais, seguindo os procedimentos operacionais da Polícia Militar.
Em manifestação atribuída ao advogado Gilberto Quintanilha Pucci, a defesa classificou a prisão como arbitrária, desproporcional e sem a devida análise das circunstâncias concretas da ocorrência.
“A defesa do policial militar envolvido na ocorrência vem a público manifestar seu firme posicionamento quanto à prisão realizada, a qual considera arbitrária, desproporcional e desprovida da necessária análise das circunstâncias concretas dos fatos.”
afirmou.
O texto acrescenta que o policial teria utilizado os meios e equipamentos disponíveis naquele momento, de acordo com o treinamento recebido e os protocolos operacionais da corporação.
Em outra manifestação reproduzida sobre o caso, atribuída ao advogado Mauro Ribas, a defesa afirmou que o soldado cumpriu os procedimentos operacionais da Polícia Militar, acionou a Central de Operações da Polícia (COP) desde o início da ocorrência e só atirou quando, segundo a versão apresentada, não tinha mais condições de recuar.
O material reunido sobre o caso atribui declarações da defesa a esses dois advogados. A investigação deverá esclarecer todas as circunstâncias da intervenção e confrontar as versões com as imagens e demais provas.
O que diz a Secretaria da Segurança Pública
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) declarou que não tolera desvios de conduta e informou que a Corregedoria da Polícia Militar acompanha o caso.
Segundo a pasta, o policial que efetuou o disparo foi preso em flagrante e encaminhado ao DHPP. Também foi instaurado um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar a atuação do agente.
A arma utilizada foi apreendida e será submetida à perícia. O local da ocorrência permaneceu preservado pelas equipes policiais até a chegada dos peritos do Instituto de Criminalística e do Instituto Médico Legal (IML).
A secretaria afirmou que todas as circunstâncias serão rigorosamente apuradas e tratadas conforme a lei.
Terceiro caso semelhante em 12 dias
A morte de Camila ocorreu em meio a outros episódios recentes envolvendo pessoas que, segundo relatos das ocorrências, apresentavam sinais de crise emocional ou possível surto e acabaram mortas após disparos de policiais militares na capital paulista.
Um dos casos aconteceu em 3 de outubro, quando Antonio Nunes Batista, de 40 anos, morreu baleado na Vila Dionísia, na zona norte de São Paulo. Segundo as informações reunidas, a ocorrência envolveu 24 disparos efetuados por policiais.
Outro episódio foi registrado em 10 de outubro, em Moema, na zona sul da capital. Gustavo Munis de Santana também morreu após uma intervenção policial. As informações reunidas sobre esse caso apresentam divergência quanto à idade dele e ao número de tiros: um trecho menciona 27 disparos, enquanto outro informa 45 e identifica Gustavo como tendo 20 anos.
Somados, os relatos citam 69 disparos nos dois casos anteriores, em um intervalo de uma semana. As duas ocorrências também foram filmadas e passaram a alimentar o debate sobre o preparo dos agentes para atender pessoas em crise e sobre os protocolos de uso progressivo da força.
Especialistas em segurança pública ouvidos pela equipe de reportagem apontaram que o número de disparos contrasta com orientações do Método Giraldi, utilizado pela Polícia Militar paulista, segundo as quais o tiro deve ser a última alternativa. A abordagem prioriza outros procedimentos e, quando necessário, prevê sequências controladas de disparos.
Os especialistas defendem a apuração rigorosa dos episódios e o reforço dos protocolos de abordagem, especialmente em situações envolvendo pessoas em possível crise de saúde mental.
As mortes de Antonio e Gustavo são investigadas separadamente pela Polícia Civil, que apura se os agentes envolvidos agiram em legítima defesa ou se houve excessos.
O caso de Camila também permanece sob investigação. A análise das imagens, os depoimentos, os laudos periciais e os demais elementos reunidos deverão ajudar a esclarecer se o disparo foi necessário diante das circunstâncias e se a atuação policial respeitou os limites legais do uso da força.
