Uma dor na mandíbula, no rosto ou até mesmo em um ou mais dentes nem sempre tem origem na boca. Embora problemas odontológicos sejam as causas mais comuns, o desconforto também pode aparecer como manifestação de uma alteração cardiovascular. A chamada dor referida pode fazer com que um problema no coração seja percebido em regiões como mandíbula, pescoço, costas e braços. A American Heart Association reconhece a dor ou o desconforto na mandíbula como um possível sinal de infarto.
Por isso, a ausência de uma dor intensa no peito não deve ser usada para descartar uma emergência cardíaca. O risco de uma condição cardiovascular merece atenção principalmente quando a dor é nova, difícil de localizar ou aparece acompanhada de falta de ar, suor frio, náusea, tontura, fraqueza ou mal-estar.
Por que o coração pode causar dor na mandíbula?
O sistema nervoso recebe informações provenientes de diferentes regiões do organismo por vias que podem compartilhar conexões. Em determinadas situações, o cérebro pode ter dificuldade para identificar exatamente a origem do estímulo doloroso.
Esse mecanismo é conhecido como dor referida e ajuda a explicar por que uma alteração cardíaca pode ser percebida na mandíbula, no rosto ou até em determinados dentes. Há registros científicos de doenças coronarianas que se manifestaram por meio de dor orofacial.
Isso não significa, porém, que uma dor de dente seja, na maioria das vezes, um sinal de infarto. Cáries, inflamações, fraturas, problemas na articulação temporomandibular, dores musculares, apertamento dos dentes e alterações nervosas continuam sendo causas muito mais frequentes.
O sinal de alerta aumenta quando não há uma explicação odontológica compatível com a intensidade ou as características da dor.
Nem toda dor na mandíbula significa infarto
A dor relacionada ao coração pode ser percebida como pressão, peso, aperto, ardência ou queimação. Além da mandíbula, o desconforto pode alcançar o pescoço, rosto, costas, braços ou outras regiões da parte superior do corpo.
Em algumas situações, o incômodo surge ou piora durante um esforço físico, como caminhar ou subir escadas. Também pode aparecer durante momentos de estresse ou mesmo de maneira repentina enquanto a pessoa está em repouso.
Já problemas odontológicos frequentemente apresentam uma relação mais direta com determinado dente. A dor pode, por exemplo, ser provocada pela mastigação ou pelo contato com alimentos quentes ou frios. Mesmo assim, essas características não permitem que o próprio paciente determine sozinho a origem do problema.
Quais sintomas devem chamar atenção?
A American Heart Association aponta, além do desconforto no peito, sintomas como falta de ar, suor frio, náusea e tontura entre os sinais que podem acompanhar um infarto. A dor também pode atingir a mandíbula, o pescoço, as costas, os braços ou os ombros.
Mulheres também podem apresentar combinações de sintomas como falta de ar, náusea, dor na mandíbula ou nas costas e cansaço incomum. Pessoas idosas e pacientes com diabetes podem apresentar manifestações menos características, o que exige atenção diante de um mal-estar súbito. O Ministério da Saúde também alerta que, em idosos e diabéticos, o infarto pode ocorrer sem sinais específicos.
O cirurgião-dentista e professor Nivaldo Vanni, mestre em Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial, destaca a importância de ampliar a investigação quando a origem odontológica não explica o quadro.
“Quando a avaliação não encontra uma causa odontológica compatível com a intensidade da dor, é necessário ampliar a investigação. Uma dor nova, difusa, acompanhada de falta de ar, suor frio, náusea ou pressão no peito não deve ser tratada apenas como dor de dente.”
alerta Nivaldo.
O que o dentista pode identificar?
O papel do cirurgião-dentista é verificar se existe uma alteração na boca capaz de justificar a dor apresentada pelo paciente. Quando os sinais não correspondem a uma causa odontológica, o profissional pode orientar a busca por avaliação médica.
Durante essa análise, informações sobre hipertensão, diabetes, doenças cardíacas, medicamentos utilizados e as circunstâncias em que o desconforto começou podem ajudar na avaliação.
Nivaldo ressalta que a existência de dor na região dos dentes não significa, por si só, que seja necessário realizar um procedimento odontológico.
“Antes de realizar qualquer procedimento, precisamos encontrar uma causa bucal que realmente explique os sintomas. Quando essa correspondência não existe, insistir em um tratamento local pode atrasar a identificação do verdadeiro problema.”
afirma.
Por esse motivo, procedimentos como tratamento de canal ou extração não devem ser realizados apenas pela presença da dor. É necessário haver uma alteração odontológica que justifique a intervenção.
Quando procurar atendimento de emergência?
Uma dor repentina na mandíbula, no rosto ou nos dentes merece atenção imediata quando ocorre junto com pressão ou dor no peito, falta de ar, suor frio, náusea, tontura, fraqueza ou mal-estar.
O Ministério da Saúde classifica o infarto como uma emergência que exige atendimento médico imediato e orienta o acionamento do SAMU pelo número 192 diante de uma suspeita. O serviço é gratuito e funciona 24 horas por dia.
A recomendação é não esperar os sintomas desaparecerem e não tentar dirigir sozinho até o hospital. Em uma possível emergência cardíaca, a rapidez para receber atendimento pode ser decisiva para o diagnóstico e o início do tratamento.
