A transferência de um dos principais nomes do crime organizado no Espírito Santo expõe o nível de articulação das facções que atuam na Grande Vitória. Apontado como líder do tráfico de drogas na região de Terra Vermelha, em Vila Velha, Cleuton Gomes Pereira, conhecido como “Frajola”, foi transferido nesta segunda-feira (13) para a Penitenciária Federal de Porto Velho, em Rondônia.
A medida atende a um pedido do Ministério Público do Espírito Santo (MPES), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), após investigações detalhadas indicarem que, mesmo custodiado desde 2017 na Penitenciária de Segurança Máxima II, em Viana, ele continuava exercendo forte influência sobre atividades criminosas fora do sistema prisional.
Comando ativo mesmo atrás das grades
De acordo com o Gaeco, “Frajola” não apenas mantinha contato com integrantes do Primeiro Comando de Vitória (PCV), como também coordenava diretamente ações da facção. As descobertas fazem parte da Operação “Telic”, que revelou uma estrutura organizada e hierarquizada, ainda sob liderança do criminoso.
Mesmo isolado em uma unidade de segurança máxima, ele conseguia fazer com que ordens chegassem às ruas por meio de intermediários, incluindo pessoas autorizadas a visitá-lo.

As determinações envolviam:
- Controle do tráfico de drogas na região
- Distribuição e armazenamento de armas e munições
- Execução de rivais por meio do chamado “Tribunal do Crime”
- Lavagem de dinheiro
- Tentativas de cooptação de agentes públicos
Medida busca romper comunicação com a facção
A transferência para o sistema penitenciário federal é considerada uma ação estratégica e excepcional. O objetivo principal é interromper qualquer canal de comunicação entre o detento e integrantes da organização criminosa.
A decisão foi autorizada pelo Juízo da 7ª Vara Criminal de Vila Velha, com aval da Justiça Federal em Rondônia. O período inicial de permanência é de até três anos, podendo ser prorrogado conforme avaliação das autoridades.
Violência crescente na Região 5 de Vila Velha
A área dominada pelo grupo liderado por “Frajola”, conhecida como Região 5 de Vila Velha, reúne mais de 20 bairros e vem enfrentando uma escalada de violência nos últimos meses.
A disputa com facções rivais tem resultado em ataques frequentes e episódios de grande impacto. Em 1º de fevereiro deste ano, por exemplo, um ônibus foi incendiado e houve troca de tiros em via pública, deixando feridos sem qualquer ligação com o crime.
Somente em março, pelo menos quatro confrontos foram registrados. Em alguns casos, trabalhadores foram atingidos e mortos, ampliando a sensação de insegurança entre moradores.
Diante desse cenário, operações das polícias Militar e Civil têm sido intensificadas na região.
Histórico criminal e atuação da facção
Cleuton Gomes Pereira acumula condenações que ultrapassam 70 anos de prisão, além de responder a diversos outros processos.
Segundo o MPES, a facção comandada por ele também utilizava redes sociais como ferramenta para fortalecer sua atuação, recrutando novos integrantes e promovendo ações criminosas.
A Operação “Telic”, que embasou a transferência, foi realizada em três fases — em agosto e novembro de 2025, e março de 2026 — e resultou na prisão de diversos integrantes do grupo, todos atuando sob uma cadeia de comando diretamente ligada a “Frajola”.
Outros líderes capixabas em presídios federais
A Penitenciária Federal de Porto Velho já abriga outros cinco detentos do Espírito Santo, transferidos desde 2021, também apontados como lideranças do PCV em diferentes regiões da Grande Vitória.
Entre eles estão João de Andrade, Carlos Alberto Furtado da Silva, Geovane de Andrade Bento, Geovani Otacílio de Souza e Pablo Bernardes.
Outro nome relevante da mesma facção, Fernando Moraes Pereira Pimenta, o “Marujo”, foi transferido em 2024 para a penitenciária federal de Catanduvas, no Paraná.
Diante dos fatos, a Justiça, em conjunto com as forças de segurança, intensifica ações para conter a violência que avança no Espírito Santo. Outros detalhes não foram divulgados até o fechamento desta reportagem.
