O assassinato de duas mulheres em plena via pública, no bairro Cruzeiro do Sul, em Cariacica, na noite do último dia 8 de abril, trouxe à tona um histórico alarmante envolvendo o cabo da Polícia Militar Luiz Gustavo Xavier do Vale, de 46 anos. O militar, que já acumula registros de outras mortes ao longo da carreira, foi preso após ser flagrado atirando à queima-roupa contra Daniele Toneto, de 45 anos, e Francisca Chaguiana Dias Viana, de 31, que estavam desarmadas e sentadas em uma calçada.
As imagens, captadas por câmeras de segurança, mostram o policial fardado e em horário de serviço efetuando os disparos. A cena foi presenciada por outros seis policiais militares, que não intervieram para impedir o crime — fato que gerou forte repercussão e questionamentos sobre o cumprimento dos protocolos da corporação.
Histórico de mortes ao longo de 18 anos de carreira
Antes do duplo homicídio, o cabo já havia se envolvido em outras três ocorrências com mortes, além de denúncias por agressão.
O primeiro caso remonta a 2009, ainda no início da carreira, quando participou de uma ação policial em Porto de Santana, também em Cariacica, que terminou com a morte de Cheverton Silva Guss, de 23 anos. À época, o inquérito concluiu que houve legítima defesa.
Em 2022, o policial voltou a se envolver em um caso fatal. Durante uma abordagem no bairro Alto Lage, ele e outro militar mataram uma mulher trans de 34 anos, conhecida como Lara Croft. Segundo a versão apresentada, a vítima teria ameaçado os agentes com um barbeador. O processo segue em tramitação na Justiça Militar.
Já em 2024, mesmo afastado das ruas, o cabo foi responsável por mais uma morte. Durante uma ocorrência em Campo Grande, ele disparou três vezes contra Rone Calisto Meira, de 39 anos, atingindo a cabeça da vítima. O caso foi encaminhado ao Tribunal do Júri, por não ser considerado crime militar.

Denúncias de agressão e atuação irregular fora do serviço
Além dos homicídios, Luiz Gustavo também foi denunciado pelo Ministério Público Militar por dois casos de lesão corporal grave, ambos em 2020.
Em uma das ocorrências, no bairro Porto Novo, em Cariacica, ele teria atirado quatro vezes contra um homem desarmado e, mesmo após os disparos, derrubado a vítima com uma rasteira. O policial alegou ter sido ameaçado e acabou absolvido em primeira instância por falta de provas e atraso na denúncia.
O outro episódio ocorreu fora do horário de serviço, quando atuava ilegalmente como segurança em uma boate em Itaparica, Vila Velha — prática proibida para militares da ativa. A vítima sofreu fratura no maxilar, passou por cirurgia e permaneceu internada por 11 dias.
Execução das duas mulheres e falha na intervenção policial
O crime mais recente ocorreu após um desentendimento envolvendo a ex-esposa do policial, as vítimas e uma discussão entre vizinhos. Segundo relatos, a confusão teria começado por causa de um ar-condicionado e suspeitas de furto de energia.
Horas antes do crime, a ex-companheira do militar teria sido ameaçada. Durante uma nova discussão, as vítimas mencionaram o filho do casal, o que levou a mulher a acionar o ex-marido, que estava em serviço.
O cabo deixou o posto onde exercia função administrativa e se dirigiu ao local acompanhado de outros policiais. Após uma discussão, ele efetuou os disparos. Daniele morreu no local, enquanto Francisca chegou a ser socorrida, mas não resistiu.
Testemunha relembra morte da filha e critica repetição do crime
A repercussão do caso trouxe à tona o relato de Silvana Santos, mãe de Lara Croft, morta em 2022 pelo mesmo policial. Ao assistir às imagens da execução, ela afirmou reconhecer o padrão de comportamento.
“A mesma coisa que aconteceu com as moças aconteceu com a Lara. Ninguém fez nada para impedir. Como é que pode o crime se repetir?”
questionou.
Silvana também lamentou a continuidade do policial na ativa após o primeiro caso:
“Precisou chegar ao extremo. Ele matou a Lara, continuou trabalhando e teve acesso às armas para fazer mais vítimas. Precisou disso para a Justiça agir.”
disse.
Prisão, processo de expulsão e posicionamento da PM
Após o crime, a Justiça decretou a prisão preventiva do cabo, que permanece detido no Quartel do Comando-Geral da Polícia Militar, em Vitória.
A corporação também instaurou um processo administrativo para expulsão do militar. O comandante-geral, coronel Ríodo Lopes Rubim, foi enfático ao comentar o caso:
“Já determinei a abertura do processo demissionário para o cabo do Vale, porque ele feriu a honra da instituição. Nós saímos às ruas para proteger e servir.”
disse.
Segundo ele, o inquérito militar deve ser concluído em até 20 dias, mas o processo de desligamento não tem prazo definido.
Conduta de policiais que presenciaram o crime é investigada
Seis policiais militares que estavam no local e presenciaram a execução também estão sendo investigados por não intervirem.
São eles:
- Edson Luiz da Silva Verona (soldado)
- Eduardo Ferro Coradini (soldado)
- Filipe Gonçalves Vieira (soldado)
- Hilario Antônio Nunes (cabo)
- Lucas Nogueira Oliveira (aluno soldado)
- Valfril do Carmo Carreiro (3º sargento)
Todos foram afastados das atividades operacionais e tiveram as armas recolhidas. O governo do estado chegou a solicitar a suspensão total, incluindo salários, mas até o momento eles seguem em funções administrativas.
O comandante destacou que a omissão contraria os protocolos:
“Em qualquer crime contra a vida deve haver intervenção, mesmo que o autor seja um colega.”
Associação critica afastamento coletivo
Em nota, a Associação das Praças da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militar do Espírito Santo (ASPRA-ES) classificou o caso como uma conduta isolada e criticou as medidas adotadas contra os demais agentes.
“É inadmissível que profissionais que agiram corretamente sejam alvos de medidas punitivas.”
afirmou a entidade.
O caso segue sendo repercussão no Espírito Santo e no Brasil.
Créditos de apuração e reportagem
A presente reportagem foi elaborada com base nas informações apuradas e publicadas pelo portal G1, ao qual creditamos a apuração dos fatos. Nossa equipe utilizou os dados obtidos por esse veículo como referência principal para a construção desta reportagem.
Agradecemos ao G1 pelo trabalho jornalístico e pela contribuição à disseminação da informação.
