Um vídeo envolvendo um jovem de 19 anos em um parque inclusivo de Vitória, no Espírito Santo, gerou grande repercussão nas redes sociais após ele aparecer imitando uma pessoa com paralisia cerebral enquanto utilizava um brinquedo adaptado para pessoas com deficiência. As imagens foram gravadas na noite do último sábado (20), na Praça da Inclusão, localizada no bairro Enseada do Suá, e provocaram uma onda de críticas e manifestações contra o capacitismo.
Vídeo viralizou de forma negativa
O vídeo mostra Fabrício de Oliveira Santos Freitas sentado em um balanço adaptado do espaço público. Durante a gravação, feita pela irmã dele, Layla de Oliveira Santos Freitas, de 23 anos, é possível ouvir os dois rindo enquanto o jovem faz gestos interpretados por internautas como uma imitação de uma pessoa com deficiência.
A publicação rapidamente se espalhou pelas redes sociais e gerou indignação de familiares de pessoas com deficiência, entidades ligadas à inclusão e moradores que defenderam o respeito ao espaço criado justamente para promover acessibilidade. Nossa equipe teve acesso ao vídeo que mostra o momento exato do ocorrido. Confira o vídeo.
Vídeo Instagram ES na Fita:
Repercussão negativa e denúncia à polícia
Após a divulgação do vídeo, diversas pessoas manifestaram revolta nas redes sociais. Entre elas está a empreendedora Kamylla Rodrigues, mãe de um adolescente de 14 anos com paralisia cerebral, que decidiu denunciar o caso.
Segundo Kamylla, a situação ultrapassou os limites de uma brincadeira e representa uma forma de preconceito contra pessoas com deficiência.
“Eu sinto na pele, todos os dias, a busca por inclusão, a busca pelo respeito, a busca pela dignidade de viver de uma pessoa com deficiência. Então, não é um caso que deve ser levado como brincadeira.”
afirmou.
Ela também questionou a utilização de um equipamento criado para garantir inclusão.
“Como que uma pessoa consegue entrar dentro de um parque desse e fazer esse tipo de brincadeira? Para mim, foi deboche, foi abuso. Como eu falei, foi capacitismo e capacitismo é crime.”
declarou.
Após a repercussão, Kamylla procurou a 1ª Delegacia Regional de Vitória e registrou um boletim de ocorrência.
Polícia Civil investiga o caso
A Polícia Civil informou que as providências iniciais foram tomadas e que o caso seguirá em investigação.
Em nota, a corporação afirmou que as diligências serão realizadas para esclarecer as circunstâncias e identificar possíveis responsabilidades.
O caso também foi encaminhado ao Ministério Público do Espírito Santo (MPES), que informou que a manifestação foi direcionada à Promotoria de Justiça Criminal de Vitória para análise e adoção das medidas cabíveis.
Segundo o órgão, situações que envolvem possível discriminação, ofensa ou violação dos direitos das pessoas com deficiência devem ser apuradas com atenção, respeitando as atribuições legais da instituição.
Espaço foi criado para promover inclusão
A Praça Inclusiva, onde o vídeo foi gravado, foi inaugurada em abril deste ano e é considerada o primeiro parque público de Vitória totalmente projetado para pessoas com deficiência.
O espaço possui brinquedos adaptados e foi criado com o objetivo de incentivar a convivência entre crianças com e sem deficiência, promovendo inclusão e respeito desde a infância.
A Prefeitura de Vitória afirmou que repudia qualquer atitude de preconceito ou discriminação.
Em nota, a administração municipal destacou que o equipamento público tem papel importante na construção de uma sociedade mais inclusiva.
“A Praça Viver Vitória contribui para a formação de uma sociedade mais empática, consciente e inclusiva desde a infância, reforçando o compromisso da administração municipal com políticas públicas voltadas à igualdade de direitos e à qualidade de vida da população.”
informou a prefeitura.
Associação de paralisia cerebral manifesta repúdio
A Associação Capixaba de Paralisia Cerebral (ACPC) também divulgou uma manifestação de repúdio ao episódio.
A entidade afirmou que a atitude registrada no vídeo representa desrespeito à luta diária enfrentada por pessoas com deficiência e suas famílias.
“Não se trata de uma simples brincadeira. Trata-se de um ato de desrespeito, preconceito e capacitismo, que fere a dignidade de pessoas que enfrentam diariamente inúmeros desafios e de famílias que dedicam suas vidas para garantir cuidado, inclusão, respeito e uma melhor qualidade de vida para seus filhos e familiares.”
declarou a associação.
A ACPC reforçou ainda que situações como essa não devem ser tratadas como algo normal ou minimizadas.
Jovens divulgam pedido de desculpas
Após a repercussão, Layla e Fabrício publicaram uma nota de retratação. Eles reconheceram que o conteúdo divulgado foi inadequado e afirmaram que não tiveram intenção de discriminar ou ridicularizar pessoas com deficiência.
Na manifestação, os dois disseram que compreendem as críticas e que o episódio serviu como aprendizado.
“Reconheço que o conteúdo veiculado foi inadequado e pode ter causado ofensa, constrangimento ou sentimento de desrespeito às pessoas com deficiência.”
disse.
Eles também afirmaram estar recebendo mensagens ofensivas e ameaças após a repercussão do caso e disseram que pretendem adotar medidas para preservar a segurança pessoal.
Layla reforçou ainda respeito aos direitos das pessoas com deficiência e pediu desculpas às pessoas que se sentiram ofendidas.
Entenda o que é capacitismo
Capacitismo é o preconceito ou discriminação contra pessoas com deficiência, baseado na ideia equivocada de que elas são inferiores, incapazes ou menos dignas de respeito.
A prática pode configurar crime previsto na legislação brasileira, com punições que podem incluir pena de reclusão e multa, conforme as circunstâncias avaliadas pelas autoridades.
Créditos de apuração e reportagem
A presente reportagem foi elaborada com base nas informações apuradas e publicadas pelo portal G1, ao qual creditamos a apuração dos fatos. Nossa equipe utilizou os dados obtidos por esse veículo como referência principal para a construção desta reportagem.
Agradecemos ao G1 pelo trabalho jornalístico e pela contribuição à disseminação da informação.
